Recife (PE), Brasil

quarta-feira, 11 de março de 2009

Que Macaquice! Cérebro humano é apenas um cérebro grande de primata!

Fonte: FSP - 1ºmar2009

Que Macaquice!

Quantidade de neurônios no cérebro reforça a proximidade entre seres humanos e outros primatas - ideia pela qual Darwin foi hostilizado

SUZANA HERCULANO-HOUZEL

Mesmo sendo apenas vagamente relacionada a uma eventual cura para doenças ou a um tratamento novo (coisa que 5 entre 7 jornalistas quiseram saber), a descoberta mais recente de nosso laboratório ganhou reportagens -favoráveis- na TV e em vários jornais no país: "Um primata nada especial", "Cérebro humano está no padrão dos primatas", "Cientistas brasileiros derrubam mitos sobre o cérebro".

A bióloga em mim fica feliz com uma coincidência: nosso artigo -mostrando que o cérebro humano, devido ao seu número de neurônios e outras células, é apenas um cérebro grande de primata nada "maior do que o esperado"- foi publicado no "Journal of Comparative Neurology" [Jornal de Neurologia Comparativa] justamente no ano do bicentenário do nascimento de Charles Darwin. Lembro de Darwin especialmente ao pensar na recepção que nossa descoberta vem obtendo do público, da mídia e de nossos pares.

Há 150 anos, ele ousou dizer que temos um ancestral em comum c om os demais primatas vivos, como primos têm avós em comum -e foi recebido com escárnio e indignação por boa parte do público e dos jornais, cujas charges o mostravam em um corpo de macaco. Sobretudo para os representantes masculinos e brancos da espécie que dominava meio mundo, sermos primos (ainda que distantes) de macacos e gorilas não parecia uma honra à altura da "espécie mais inteligente da Terra", supostamente criada "à imagem de Deus", e não de outros primatas.

Sem resistência
Por isso, quando em 2007 comecei a apresentar em palestras para o público leigo nossos trabalhos comparando cérebros humanos e de outros primatas e a argumentar que o cérebro humano é apenas um cérebro grande de primata -com o tamanho e número esperado de neurônios para um primata de 60 a 70 kg-, eu esperava alguma resistência do público, se não indignação. Mas, para minha grata surpresa (que inicialmente beirava a decepção, confesso ), o público em geral sorria e concordava com a cabeça quando eu anunciava nossa conclusão: se o cérebro humano é feito segundo as regras que valem para os demais primatas, Darwin era portanto também um primata -assim como todos nós.

O que 150 anos de evolução, história, educação científica e debates não fazem: hoje posso chamar meu público de primata e ainda receber sua aprovação bem-humorada. Desde Darwin, muitos biólogos, psicólogos e neurocientistas se empenham em encontrar maneiras de identificar características distintivas do cérebro humano que justificassem nossa "superioridade". Muitos sossegaram quando, nos anos 1950, Henry Jerison calculou o coeficiente de encefalização e demonstrou que, comparados aos demais mamíferos, "nosso cérebro é de cinco a sete vezes maior do que o esperado".

Considere que o tamanho do cérebro cresce junto com o tamanho do corpo na evolução e olhe para gorilas e orangotangos: donos de corpos até trê s vezes maiores que o humano, o cérebro deles é apenas um terço do nosso. Para o corpo relativamente diminuto que temos, nosso cérebro deveria ser menor que o dos gorilas. Mas não é. Assunto encerrado: somos especiais.

Homens primatas
Mas a ideia de que seríamos especiais não se encaixava com o que eu aprendera na biologia: por que as regras da evolução se aplicariam a todos os outros animais, menos a nós? Após cinco anos de pesquisas determinando e comparando números de neurônios entre espécies de mamíferos, chegamos aos humanos, graças a uma colaboração com a equipe do Banco de Cérebros da USP.

Com 86 bilhões de neurônios, não 100 bilhões, e sendo eles metade das células do cérebro, e não um décimo, o cérebro humano é construído da maneira esperada para um cérebro de primata em um corpo de 70 kg -não maior do que o esperado nem com mais neurônios do que o esperado. Ou seja: as regras da evolução d o cérebro de primatas também se aplicam a nós, como deveriam.

Se algo nos torna especiais, é a combinação de sermos primatas (e não, por exemplo, roedores, o que nos permite concentrar um grande número de neurônios em um volume pequeno) e, dentre os primatas, os felizes portadores do maior cérebro -e, portanto, do maior número de neurônios. Bons argumentos para Darwin responder aos seus detratores: "Sou primata, sim -e com muita honra".

Sugerimos então que os pontos fora da curva seriam não os humanos, mas os orangotangos e gorilas, donos, ao que tudo indica, de cérebros igualmente "normais" de primata, mas corpos exageradamente grandes. Tamanha inversão de valores, no entanto, impediu que nosso artigo fosse publicado na prestigiosa revista "Science" -porque um parecerista implicou com a ideia. Mudar o status quo da ciência dá trabalho... Mas os pareceristas do "Journal of Comparative Neurology" gostaram da ideia -como muitos de meus pares , aliás-, e agora estamos prontos para ver o que o restante da comunidade científica terá a dizer.

Acho divertido pensar que, por causa de ciência "made in Brazil", livros-texto em várias línguas talvez sejam revistos; Roberto Lent [pesquisador da UFRJ] já está pensando no que fazer com seus "Cem Bilhões de Neurônios" [ed. Atheneu].E público e mídia, ao que parece, estão receptivos. Também, pudera; há 150 anos que Darwin nos prepara o terreno.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL é neurocientista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de "Fique de Bem com o Seu Cérebro" (ed. Sextante), entre outros.
Pesquisa levou a nova contagem de neurônios

DA REDAÇÃO
A afirmação de que o homem tem cerca de 86 bilhões de neurônios -e não cem bilhões, como se dizia-, publicada no "Journal of Comparative Neurology" por Roberto Lent, Suzana Herculano-Houzel e outros sete autores, foi possibilitada por um novo método de contagem.Dissolvendo células cerebrais em detergente, foi obtido um líquido homogêneo, permitindo uma contagem mais precisa. As células gliais foram estimadas em 84 bilhões, negando a tese de que temos dez delas para cada neurônio -ambos os resultados aproximam o cérebro humano ao dos demais primatas.

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