Recife (PE), Brasil

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Caçando mitos: "Cortar o Tempo" não é de Drummond


No final do ano recebi um texto atribuído a Carlos Drummond de Andrade. O texto não tinha título, mas em pesquisa na internet, vi que alguns sites o intitulavam "Cortar o Tempo".

Como desconfiei do estilo, preferi não repassá-lo antes de checar sua veracidade.

Assim, enviei mensagem para o site oficial de Drummond (http://carlosdrummonddeandrade.com.br/) pedindo esclarecimentos sobre o texto.

Hoje recebi a resposta, abaixo reproduzida:

"Oi Edilson,

Esse texto não é de autoria do Carlos Drummond. Ele escreveu Receita de Ano Novo, que está disponível no site www.carlosdrummonddeandrade.com.br .
Abraços,
Aline Freitas"

Agora vejam a diferença entre os dois textos. Um oceano os separa em matéria de poética, profundidade e qualidade literária.

TEXTO RECEBIDO (Falsamente atribuído a Drummond):

CORTAR O TEMPO

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente...

Para você, Desejo o sonho realizado.
O amor esperado. A esperança renovada.
Para você, Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes...
e que eles possam te mover a cada minuto,
no rumo da sua FELICIDADE!!!"

Carlos Drummond de Andrade

TEXTO DE DRUMMOND:
 
RECEITA DE ANO NOVO
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido).

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior).

Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

38 comentários:

Anônimo disse...

tá! mas então de quem é o texto cortar o tempo?

Anônimo disse...

Caro anônimo,
Não é possível identificar a autoria do texto "cortar o tempo", pelo simples fato de que quem divulga estes textos não cita a fonte verdadeira. Apenas coloca o nome de alguém famoso para dar credibilidade e estimular as retransmissões, muitas vezes com propósitos escusos de capturar os endereços de e-mail colocados nas retransmissões.
Algumas vezes, com alguma (ou muita) pesquisa, conseguimos identificar a origem, mas na maioria das vezes, não.
Abraço,
Edilson.

Karoline Galisteu Toppis disse...

Edilson,

Primeiramente, bom dia.
Surgiu uma outra dúvida, é texto ou poesia de Drummond?

Edilson Queiroz disse...

Karoline,

Na verdade, tanto o legítimo quanto o apócrifo são textos (aliás, uma poesia é sempre um texto), mas o autêntico também poder ser classificado como poesia, pois apesar de não ter rima, está impregnado de poética, como nos trechos:

"Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)"

ou:

"liberdade com cheiro e gosto de pão matinal"

ou, no desfecho:

"Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Abraço,

Edilson.

Anônimo disse...

achei muito bom os dois textos.Drummond é o cara!
eu tenho uma dúvida em relação a autoria do poema 'Amor é fogo q arde sem se ver... Ele é de Vinícius de Moraes ou de Luís de Camões?

Anônimo disse...

Sendo ou não de Drummond, o texto Cortar o Tempo é fantástico, pois é o que acontece de fato com as pessoas. Assim como o texto Receita de Ano Novo faz com que a gente repense no que é Ano Novo e se realmente estamos renovando algo dentro de nós.
Jaciara Teixeira

Anônimo disse...

Tenho certeza absoluta que esse trecho é de drummond. Foi publicado num livro de contos do mesmo.

Blog do Edilson disse...

Caro Anônimo de 26.12, gostaria muito que você me informasse em qual livro de contos de Drummond consta esse texto, pois a informação foi desmentida pela própria assessoria dele.

Caro Anônimo de 4.8, o poema "Amor é Fogo que Arde sem se Ver" é de Camões", mas a primeira parte da letra da música "Monte Castelo", do Legião Urbana, que começa com "Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria..." é bíblico, da primeira epístola de Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 13).

Anônimo disse...

Edilson, parabéns demais pela confirmação! A internet está cheia de patacoadas como essa sobre Drummond.

É como aquela a que se referem a certo escritor "O mundo é um só, meu caro. Pena que os donos da vida continuem a dividi-lo para proveito própio"... A grosseria é tão grande que em todos os sites a palavra "próprio" é grafada barbaramente como na citação que fiz. É primário, um desserviço ao autor e ao leitor.

Muitos parabéns. E obrigado.

Anônimo disse...

Uma observação quanto ao gênero dos textos lidos: ambos são textos e são poemas. Poesia não é gênero textual, refere-se ao sentimento lírico, poético que pode estar em um texto ou não. Pode estar em uma pintura, em uma música ou em uma simples cena cotidiana. O poema é concreto ,a poesia é abstrata, para ser sentida, vivida ...

Mypaiva disse...

O texto "Quem teve a ideia..." é do maior poeta gaúcho de todos os tempos, Mario Quintana.
Abraços e feliz tempo novo!

Anônimo disse...

No Programa Provocações da Tv cultura do dia 10/01/2013, o apresentador narra o texto atribuindo-o ao Drummond. Será que um canal de tv tão respeitado transmitiria informação errada??? Confira: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=RmIBGFl-8XU

Anônimo disse...

Opa, site do "Provocações" corrigido, nenhuma referência mais a Drummond é feita - e estava lá! Confira: http://tvcultura.cmais.com.br/provocacoes/poemas-e-textos/pgm-598-cortar-o-tempo-08-01-2013

Parabéns Edilson!

Heloisa dos Santos disse...

Gostei mto do seu esclarecimento. Eu mesma, fã de Drummond compartilhei como se fosse dele. Diante da dúvida de um amigo cheguei até vc e já estou divulgando sua pesquisa e seu blog. Grande sbraço!

Rosangela Aliberti disse...

Pensando no canal respeitado... com licença, vamos a um exemplo... procure ler a adaptação da poesia "Seiscentos e sessenta e seis" de Mario Quintana e comparem "O Tempo" lido por Antônio Abujamra Provocações [Mário Quintana] http://www.youtube.com/watch?v=1WyMHo6XJ2M se certas pessoas apontam que NADA consta nos livros... será que as pessoas que questionam se é ou não é deram um pulo em alguma biblioteca e folhearam um "Mario Quintana Poesia Completa, Nova Aguilar" e no caso do tópico "Prosa Seleta e/ou Poesia Completa Carlos Drummond de Andrade" da mesma editora? É evidente que textos apócrifos não constam nos livros e se uma ou mais pessoas estão afirmando que não tem nada tem neles é por que ninguém encontrou "nadica de nada" as letras podem até ser consideradas belas, no entanto por que será que está difícil compreender que não são dos referidos autores? Escrevi algumas vezes para "Provocações" e se o sr. Abujamra não quer mudar "o texto", deve ter algum motivo, a vida tem um quê de teatro e suas pro-vo-ca-ções. Algumas formigas juntas podem formar uma rebelião e incomodar muita gente.

Suzanne disse...

Esse texto, "Quem teve a ideia de cortar o tempo..." nao e' de Drummond e muito menos de Quintana! A primeira parte. ate' "...vai ser diferente", faz parte de um texto escrito pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo em sua pagina na revista Veja, Eu li a alguns anos atras. Ja pesquisei aqui na internet mas nao encontro a referencia.

Anônimo disse...

Caro Edilson... tenho todos os livros de Drummond em suas primeiras edições, desde "Alguma Poesia" de 1930, e "Cortar o Tempo" não é de Drummond... não é poesia (prosa ou verso) nem mesmo texto de seus livros de "casos e contos" como "Confissões de Minas" por exemplo... vc. está absolutamente certo...abraço...Pedro

j. campo grande disse...

Bem, a julgar pelo erro de concordância verbal nos dois últimos versos, vê-se logo que de Drummond não poderia ser...

Anônimo disse...

Obrigada, Edilson!!!
O texto é interessante (principalmente a primeira estrofe)mas se não é dele, fica chato ficar repassando. Você me salvou.

Anônimo disse...

http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/cortar-o-tempo-em-fatias-nao-e-drummond-e-roberto-pompeu-de-toledo/#.VoPvbrYrLow

Adriano Canere disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adriano Canere disse...

"Cortar o tempo" é da Vilma Galvão

Adriano Canere disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adriano Canere disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marco Drummond disse...

Eu acessei o site hoje pela mesma dúvida e fiz uma pesquisa de cinco minutos, descobrindo o seguinte: as duas primeiras frases foram publicadas pelo Roberto Pompeu de Toledo na Veja, num final de ano. A partir daí começa um poema da Vilma Galvão (doze meses dão para qualquer...). São textos bonitos, mas realmente o de Drummond é muito melhor.

Anônimo disse...

O autor do texto "Cortar o tempo" é Roberto Pompeu.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LadyMoon disse...

Tentei acessar o mencionado site www.carlosdrummonddeandrade.com.br e ele é redirecionado ao site da Saraiva. Pesquisei no google, e não existe um site oficial do Carlos Drummond de Andrade com esse nome. Então, gostaria de saber como o caro blogueiro conseguiu essa "suposta" informação!

LadyMoon disse...

Tentei acessar o mencionado site www.carlosdrummonddeandrade.com.br e ele é redirecionado ao site da Saraiva. Pesquisei no google, e não existe um site oficial do Carlos Drummond de Andrade com esse nome. Então, gostaria de saber como o caro blogueiro conseguiu essa "suposta" informação!

Martha Catalunha disse...

Me sinto agradecida pelo esclarecimento, mas fiquei frustrada por tentar acessar a página oficial do Drummond e como LadyMoon cair de pára-quedas no site da Saraiva...

Anônimo disse...

o site carlosdrummonddeandrade que voce indica remete a livraria saraiva. voce pode, por favor, publicar o site oficial correto? obrigada. Ana

Rosangela Aliberti disse...

Quanto a dúvida da primeira parte do texto ser ou não de Drummond só para reforçar: Nada consta, nos livros: Carlos Drummond de Andrade - Poesia Completa, RJ: 2007 Editora Nova Aguilar, bem como Carlos Drummond de Andrade – Prosa Seleta, RJ: 2003 Editora Nova Aguilar

Rosangela Aliberti disse...

Há um tempo atrás se podia contactar com o site mencionado, tem até um pdf da Companhia das Letras que aponta para o site (com um pdf da Companhia das Letras): Carlos Drummond de Andrade Alguma Poesia Graña@Drummond (+ página mencionada). Lembrando que a informação fora blogada em 2010 e muitos domínios saem fora de ar.

Pedro Lins e Silva disse...

Concordo com o dono do Blog...tenho uma pequena coleção de Drummond e Manuel Bandeira e "Cortar o tempo" definitivamente não faz parte de nenhum volume de poesias do Drummond... poderia ter sido publicado de forma avulsa em algum jornal ou revista mas acredito ser improvável pois o mesmo tem um ritmo que não se assemelha ao do poeta. Tenho publicado em um Blog, como referência visual para aficionados e curiosos, imagens das obras em primeira edição ou dedicadas de Drummond e Bandeira, das quais tenho a custódia temporária... quem tiver curiosidade: http://spotguidembecda.blogspot.com.br

Anônimo disse...

O texto é de Roberto Pompeu de Toledo.
Vejam https://pensador.uol.com.br/frase/NTM0ODA0/

Anônimo disse...

Drummond escreveu "Receita de Ano Novo"

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade , "Receita de Ano Novo". Editora Record. 2008.

Olavra Said disse...

http://www.sbu.unicamp.br/lendoletras/index.php/textos/22-quando-drummond-fala

Unknown disse...

No site da Biblioteca da Unicamp aparece como sendo autoria de Drumond. Segue o link: http://www.sbu.unicamp.br/lendoletras/index.php/textos/22-quando-drummond-fala

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